domingo, 25 de novembro de 2012

dia 34

Já lá vão os tempos em que os sábados faziam parte dos 2 dias de descanso semanais. Aqui o sábado é o último dia da semana, e nunca trás certesas relativamente ao domingo. Sim. Porque também existe a forte possibilidade de trabalhar na véspera de segunda-feira.

Quem visitar a nossa empresa, e nos vir a trabalhar desta forma, até pode pensar que viemos para Angola para enriquecer. Mas aqui só enriquecemos o "Boss" e respectivos irmãos.

Tenho recebido ameaças. Nomeadamente que me vão deportar de volta para o meu pais, com o "carimbo vermelho". Nada que os meus colegas também não tenham ouvido. Mas o facto do meu visto ordinário ter expirado, faz-me neste momento um emigrante ilegal neste pais. Ficaram com o meu passaporte. E ando sem documentação válida. Parece que o tão falado "carimbo" é o "bicho papão" da aldeia.

A semana passada os Portuguêses sofreram um súbito e inesperado corte no salário. Não é que isto seja uma novidade para a comunidade "tuga". Mas aqui? neste pais? não faz sentido. Esta decisão foi justificada dizendo que somos incompetêntes, que não trabalhamos nada, e que ganhavamos muito para aquilo que produziamos.

Bem, sendo assim, vou pedir o bilhete de regresso "à crise". Eu até aceito ser explorado. Mas tem de compensar no final do mês.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

dia 30

Hoje o dia começou de uma forma estranha, bizarra, e incomum. Após algumas horas a dormir, acordei de forma exaltada às 3:00 da manhã, sem me aperceber bem do que se estava a passar. Não tinha uma justificação válida para o meu delírio, mas saltei da cama com a plena convicção que estava num quarto fechado, trancado, algures numa das obras que tenho andado a fazer. Como se estivesse numa especie de "casa de máquinas" rodeado de acessórios e equipamentos. Senti que tinha escapado do meu posto de trabalho, procurado uma sala obscura, e adormecido sem o conhecimento do "Boss". Sem perder tempo saltei da cama, e procurei a minha roupa. Quando me apercebi que estava cercado pela minha mágnifica rede mesquiteira, desci à terra, e apercebi-me que as constantes 24h seguidas de trabalho estavam a ter efeitos secundários. Será que estou a elouquecer?

A intensa chuva que se fazia ouvir lá fora, acabou por estragar aquela que seria a última hora de descanso antes do habitual alarme das 4:00 da manhã. Chovia tanto, que fiquei com receio de uma eventual inundação do meu quarto. "Felizmente" tive apenas infiltrações nas paredes.

Saímos do estaleiro, com o receio de encontrar aquele perigo ainda mais temivél de conduzir na estrada de Samba, mas desta vez com piso molhado. Até um certo ponto, acreditamos mesmo ser impossível ir para Luanda, visto que todos os caminhos se tinham transformado em piscinas de lama.

O que mais me chateou hoje, foi o facto do meu "Boss" querer que eu utilizasse o meu computador pessoal para trabalhar. Cheguei mesmo a ser acusado de "não querer trabalhar". 

Já a caminho de "casa", surgiu-me a ideia que o dia não podia ficar pior, e que a minha almofada me fosse trazer o sossego que tanto desejava. Numa tentativa de escapar aquele trânsito impertinente, decidimos tomar um atalho. Seguimos uma estrada escura e esburacada com a sensação que estariamos a ultrapassar algumas centenas de carros parados naquela maldita estrada, e a ganhar terreno em direcção ao "30". De repente deparámo-nos com uma daquelas piscinas de água que ocupava de forma "egoísta" toda a largura da estrada. Sem olhar para trás, e com a plena convicção que este era o caminho a seguir, entrámos naquele lodo, e "zashhh" ...o carro foi abaixo. Deixámos o carro percorrer alguns metros, e tentámos reanimá-lo ...mas sem exito. Ali ficamos 2 longas horas à espera que nos viessem ajudar.




sábado, 17 de novembro de 2012

dia 27

Depois de alguns dias sem electrões em casa, parece que hoje finalmente se fez luz. Ontem à noite, quando regressei a casa por volta das 23:00, senti-me um urso de volta à sua toca. Sem luz, sem água, e sem gás. A única fonte luminosa no interior da minha "habitação" nestes últimos dias tem sido a luz do meu telemóvel. E para ter esse luxo, tive mesmo que carregar a respectiva bateria no café mais próximo.

O Verão apróxima-se, e faz-se sentir logo pelas 8:00 da manhã. Hora que eu custumo ter vontade de almoçar. Até porque já se tornou hábito levantar às 4:00 para ir trabalhar. 4 horas depois, parece que o dia já vai a meio.

Dizem que eu trabalho numa empresa de construção? Eu vejo isto como sendo uma academia militar. E nós somos os tropas a construir a cidade, dia e noite, 7 dias por semana.

Tive uma nova reunião no Palácio do Vice-Presidente. Enquanto esperava cá fora, falei com um dos carpinteiros. E perguntei-lhe: "o que achaste da última obra?". Ele pareceu um pouco surpreendido com a minha pergunta. E respondeu "foi duro". Eu também não esperava uma resposta muito diferente. Lancei uma nova pergunta, tendo a perfeita consciência que me ia surpreender com a resposta: "quantas horas extra fizeste?". Ele olhou-me nos olhos, ergueu as sobrencelhas, e respondeu: "trabalhei 72horas seguidas 3 vezes".

Hoje recebi um elogio do meu "Boss". Ele considerou-me um rapaz simples e humilde. Parece que esta semana não estou nomeado para sair. 




Estas são as árvores de Cajú!


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

dia 24

Hoje o dia começou sem luz novamente. Aliás, eu até já acho estranho começar o dia COM electricidade no quarto. Será que me estou a adaptar?

Saí do quarto à hora que devia estar a entrar no trabalho. Mas espera. Eu moro no trabalho. Logo, não cheguei atrasado. Apesar disso, levei um olhar desconfiado de um supervisor que já andava de folha na mão a marcar as presenças. Fiquei o resto do dia a questionar-me se levei falta? Acho que vou ter a resposta a essa pergunta ...quando receber o salário (ou parte dele).

Já no escritório o cenário não era muito diferente daquele que custumo ter no meu quarto: no electricity. Ora bem, fazendo uma regra de três simples:

com electricidade   -    trabalhamos
sem electricidade    -        ?

Ya. É isso mesmo. Até um Angolano seria capaz de chegar a essa conclusão.

No entanto, parece que "se fez luz". Não é que o gerador começou a trabalhar? E tivemos electricidade durante todo o dia. Todo o dia? como quem diz!  durante horário de trabalho! porque às 17:00 da tarde (hora do pessoal sair), voltaram a desligar o gerador, e desta vez até trancaram a porta com um cadeado. Então, nós é que somos os brancos! Só temos direito a electricidade para trabalhar. Agora se quiseres tomar um banho? terás de o fazer às escuras ...e com a água que foste buscar no balde. Porque sem electricidade a bomba de água não funciona, logo não tens água canalizada para o teu quarto.

Começo a desconfiar que as falhas técnicas do gerador, e da bomba de água, são sacanisses escuras ..bem pretas ..que nos tentam pisar ..

..enfim ...afinal o branco aqui sou eu. 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

dia 15

A semana de trabalho já leva 8 dias seguidos. E hoje às 4:00 da manha dei inicio a mais 6.

O dia prometia. Não sei especificar concretamente o que? mas prometia. Cheguei a sentir-me uma especie de "Mourinho". Deram-me 11 trabalhadores para inicar uma obra no Palácio do Vice-presidente de Angola. Eu tinha a táctica bem estudada. Restava apenas saber qual seria o resultado final. Depois da obra ter começado, tive a visita de um senhor que parecia ser "importante". Parece que o barulho proviniente das demolições incomodaram os "ministros". Com uma expressão facial muito pertubada, pediu "silêncio". Senti que me estavão a pedir para marcar golos num cesto de basquetball. As obras normalmente fazem barulho.

Fui obrigado a adiar a obra "until further instructions". Parece que tinha a táctica correcta, mas o planeamento errado :/

Recebi ordens para regressar à "base", e inciar os trabalhos referentes à próxima obra. Estava prestes a aventurar-me pelas ruas de Luanda numa "lambreta" angolana. Sentei-me na lambreta, atrás do designado "moto-boy", e perguntei: "onde é que é suposto a gente se agarrar?". Tinha a ligeira sensação que devia ter pedido o livro de instruções. Mas não me restou alternativa, se não mesmo agarrar a parte inferior do banco com a pontas dos meus dedos, e iniciar a viagem. Durante 20 minutos, percurri metade da cidade de Luanda, atravessando estradas de terra batida esburacadas, estradas "semi-alcatroadas" com lombas que mais pareciam degraus. Cheguei mesmo a passar entre 2 autocarros que gradualmente se ia aproximando um do outro, encurtando aquele espaço por onde a gente se tinha enfiado. Mas consegui sobreviver a viagem. No final fiquei com a sensação que tinha passado o último nivel dos "angry birds".

A famosa "lambreta" do "Moto-boy"

Resta apenas mencionar a ocorrência de mais um acidente na estrada de Samba. Sem perceber concretamente como aquilo tinha acontecido, vi um camião carregado de pedra, em cima de um ligeiro. Um tractor recém-chegado tentava tombar o camião para o lado contrário, permitindo resgatar os passageiros que provavelmente já estavam esmagados: